Conduta - Babá
Excerpt
Babá
Letícia, a babá. Com apenas dezenove anos, ela parece deslocada entre os profissionais sisudos e competitivos que circulam pelos corredores corporativos. Sua juventude é enganosa. Atrás do olhar doce e das roupas simples, Letícia carrega uma sabedoria emocional rara, moldada não por diplomas ou treinamentos formais, mas por uma vida que exigiu dela maturidade desde cedo.
Letícia foi contratada originalmente para cuidar das crianças de funcionários de alto escalão durante um projeto piloto de ambiente corporativo familiar. Mas o programa foi descontinuado silenciosamente após uma série de eventos que nunca chegaram à imprensa. Ela, porém, permaneceu. Oficialmente, por bons serviços prestados. Extraoficialmente, porque parecia ser útil demais para ser dispensada.
Não há crianças no prédio. Mas Letícia está sempre lá. Circula pelos andares com naturalidade, levando lancheiras organizadas, cantando melodias infantis quase imperceptíveis e observando tudo com atenção. Sua presença provoca desconforto. Ninguém quer confrontar uma jovem aparentemente inofensiva, mas todos sabem que ela escuta mais do que deveria. Sua gentileza a torna invisível, e é justamente isso que a torna perigosa.
Letícia possui uma habilidade rara e sutil: ela consegue fazer com que os outros revelem demais, acreditando que estão apenas desabafando. Ela acolhe, escuta, e quando responde, não oferece conselhos, mas perguntas simples e cortantes. “Você tem certeza de que foi justo com ele” ou “E se ele soubesse disso, o que faria”. Não julga, mas planta a dúvida. Uma dúvida que corrói, que muda escolhas.
Sua conduta é desconhecida. Letícia pode ajudar a proteger alguém sem jamais revelar isso, ou manipular silenciosamente um grupo inteiro com frases ditas em momentos-chave. Ninguém sabe ao certo de que lado ela está, talvez nem ela mesma. Seu critério é afetivo, quase intuitivo: protege quem considera bom, mas sem apego à lógica ou alianças fixas.