Conduta - Bióloga
Excerpt
Bióloga
A doutora Lúcia Carvalhal nunca teve pressa. Desde que entrou na corporação, manteve uma presença serena, quase apagada — mas com olhos que analisavam tudo como se o ambiente fosse um grande organismo doente. Ela tratava o escritório como um ecossistema em desequilíbrio, e cada funcionário como um vetor potencial de contaminação.
Sua especialidade era a microbiologia comportamental — um campo que poucos compreendiam de verdade e, por isso mesmo, respeitavam em silêncio. Falava pouco, mas quando abria a boca, media cada palavra como se fosse um composto químico instável. Seu laboratório não era apenas aquele com placas de Petri e centrifugadoras no subsolo. Lúcia fazia anotações mentais o tempo todo. Sobre todos. Você podia não vê-la, mas ela veria você — o padrão de suor em sua camisa, o quanto seu olhar desviava ao ser confrontado, ou o grau de tremor involuntário na sua mão ao segurar o café.
Dizem que ela alertou a diretoria meses antes do primeiro grande incidente. Não com alarde, mas com gráficos sutis, relatórios silenciosos e fórmulas que descreviam, com exatidão, como a degradação moral se propagava como uma praga viral. Ninguém escutou. Depois disso, ela parou de avisar.
Alguns começaram a estranhar a frequência com que Lúcia se ausentava durante a noite — ou o fato de que seu crachá acessava áreas fora de sua jurisdição. Outros achavam que ela sabia demais, que guardava amostras indevidas ou que manipulava compostos que não constavam em nenhum protocolo. Mas ninguém tinha provas. E se alguém se aproximava demais, ela oferecia respostas tão técnicas, tão profundas, que o questionador simplesmente recuava. Ou pior: passava a confiar nela.
No jogo de Conduta, a Bióloga é o tipo de peça que trabalha nas entrelinhas, que colhe dados sem que percebam. Sua habilidade pode revelar padrões, sintomas ou desvios de conduta. Mas como todo conhecimento biológico, suas descobertas dependem de tempo — e interpretação. Pode ser aliada ou ameaça, dependendo de quem a consulta, ou do que decide ocultar.
Sua condutaDesconhecida. Porque o conhecimento absoluto pode ser uma forma de manipulação. E Lúcia aprendeu, com os vírus e as células, que sobreviver nem sempre é agir. Às vezes, é apenas adaptar-se melhor do que os outros.
E ela aprendeu muito bem.