Conduta - Cozinheiro

Excerpt

Cozinheiro


Todos o conheciam apenas como Dimas. Nenhum crachá, nenhum sobrenome. Para os registros oficiais da empresa, era um prestador de serviço terceirizado do refeitório. Mas para aqueles que conviviam com ele, Dimas era muito mais do que um cozinheiro. Era uma presença constante, uma testemunha silenciosa dos bastidores mais íntimos da corporação.

Dimas estava lá desde antes da última fusão, desde antes do atual CEO, desde antes da troca de prédio. Ele atravessara crises econômicas, escândalos internos e reformulações administrativas. Sempre no mesmo horário, com o mesmo avental manchado e o mesmo rádio antigo ligado baixinho, tocando músicas que ninguém mais lembrava o nome.

Ninguém sabia muito sobre sua vida fora dali. Alguns diziam que ele fora chefe de cozinha em um restaurante premiado. Outros, que servira nas forças armadas e aprendera a cozinhar no campo. Havia até quem murmurasse que Dimas havia cometido um crime grave no passado e que o emprego no refeitório era parte de um acordo velado com a diretoria. Mas ele nunca confirmava nada. Apenas sorria com os olhos semicerrados e dizia: “Comida boa não julga ninguém.”

Mas havia algo nos olhos de Dimas — um olhar que observava demais. Ele sabia quem almoçava com quem, quem parava de comer após uma reunião tensa, quem bebia demais o café quando estava ansioso. Ele conhecia os hábitos alimentares de todos os departamentos e lembrava de cada restrição, preferência ou alergia sem jamais precisar perguntar duas vezes. Mas, acima de tudo, ele percebia o silêncio. Sabia quando alguém estava evitando olhar outro colega. Sabia quando um prato deixado de lado escondia culpa.

E às vezes, oferecia algo especial. Um pão caseiro que não estava no cardápio. Um chá que “ajudava com dores de cabeça”. Uma sobremesa extra, “porque você pareceu precisar”. Ele não explicava — apenas entregava. Era nesses pequenos gestos que Dimas intervinha no jogo. Comida, para ele, era ferramenta de conforto, sim, mas também de influência.

No universo de Conduta, o Cozinheiro é de conduta da ordem. Sua habilidade pode ser usada uma única vez por partida e permite interromper o efeito de qualquer habilidade maligna usada contra outro jogador, como se tivesse “antídoto no prato certo”. Mas ele só pode usar essa habilidade após observar a mesa por um turno completo — precisa entender quem realmente está em risco.

Dimas nunca levanta a voz. Nunca confronta ninguém. Mas enquanto todos se devoram por poder, ele observa, cozinha… e decide quem continua alimentado — e quem fica com fome.