Conduta - Escritora
Excerpt
Escritora
Função: Escritora
Na empresa, ela era apenas Clara M. Varella — redatora técnica da equipe de comunicação interna, sentada sempre na mesa do canto, próxima à janela que jamais se abria. Mas, nas entrelinhas da rotina burocrática, ela era muito mais do que aparentava. Ninguém sabia o que o “M” significava. Ninguém se atrevia a perguntar.
Clara escrevia como quem sangra. Antes da empresa, fora romancista de prestígio mediano, autora de uma trilogia psicológica louvada por críticos e ignorada pelo público. Quando as vendas minguaram e a editora fechou, Clara vendeu a alma — ou parte dela — ao corporativismo. Seus textos agora falavam sobre métricas, integração de times, ética e performance. Palavras ocas, mas cuidadosamente medidas. Frases afiadas como navalhas disfarçadas em slides de PowerPoint.
Ela observava tudo. O silêncio entre os colegas, o nervosismo dos novatos, os sorrisos forçados dos líderes. Registrava tudo mentalmente, como se estivesse escrevendo um livro invisível — um romance corporativo de terror. Sabia quem copiava quem. Quem mentia bem. Quem escondia algo. Clara via tudo isso porque havia vivido tudo isso antes, de forma diferente, nas entrelinhas da literatura. Agora, escrevia com mais precisão. Sua pena era sua arma. E sua mente, um arquivo sombrio.
Poucos sabiam que Clara mantinha um diário criptografado em seu laptop, um documento confidencial onde narrava os acontecimentos da empresa com nomes trocados, mas situações reais. O que era ficçãoO que era denúnciaNinguém sabia. Talvez nem ela.
Quando os boatos começaram — sabotagens internas, sumiço de relatórios, desconfiança generalizada —, Clara já havia previsto tudo. Escrevera uma cena parecida semanas antes. Isso a assustou. Ou a excitou. Era como se sua narrativa estivesse moldando a realidade. Ou pior: como se a empresa estivesse seguindo o roteiro de sua mente.
Alguns colegas a acusaram de manipulação sutil. De plantar ideias através dos textos da intranet. De provocar paranoia. Clara não respondeu. Nunca respondia diretamente. Apenas escrevia.
No universo de Conduta, a Escritora é a personificação da ambiguidade. Ela pode registrar a verdade ou distorcê-la. Pode proteger informações vitais — ou expô-las para o caos. Sua habilidade pode salvar a integridade de um grupo… ou desestruturá-lo com uma única frase bem colocada. Sua condutaDifícil de definir. Clara pode ser uma aliada preciosa. Ou uma traidora silenciosa. Afinal, quem controla a narrativa, muitas vezes, controla o jogo.