Conduta - Jornalista
Excerpt
Jornalista
Clara Nogueira não fazia parte oficialmente da empresa — e isso era exatamente o que a tornava mais perigosa que qualquer executivo de cargo alto. Com seu blazer surrado, gravador escondido no bolso e olhar que misturava cansaço e vigilância, Clara era uma constante lembrança de que, mesmo atrás de portas fechadas, a verdade tem olhos. E ouvidos.
Ela começou como repórter policial em jornais de bairro, cobrindo tiroteios esquecidos e pequenas corrupções de delegacias. Mas foi sua reportagem investigativa sobre fraudes em licitações públicas que a catapultou para os holofotes — e para uma lista não oficial de jornalistas “inconvenientes”. Desde então, Clara só aceitava trabalhos de alto risco. Ou, como ela dizia, “de alta necessidade moral”.
Seu interesse pela empresa surgiu após uma denúncia anônima. A princípio, parecia mais uma história sobre desvio de verba e assédio velado. Mas à medida que cavava mais fundo, Clara encontrou algo muito pior: manipulação interna de dados, chantagens cruzadas, desaparecimentos sem explicação. E, mais alarmante, uma estrutura informal de poder que operava sob a lógica de uma seita corporativa.
Ela então se infiltrou como terceirizada de comunicação. Conseguiu acesso aos bastidores, aos arquivos ocultos e, principalmente, às pessoas. Clara tinha um dom: conseguia fazer qualquer um falar. Não por pressão, mas porque seu silêncio sabia ouvir. Cada pergunta sua era afiada como um bisturi, e cada silêncio depois da resposta era um espelho que fazia o interlocutor se ver com mais nitidez do que gostaria.
Sua missão, no entanto, não era expor a empresa imediatamente. Era entender quem, dentro daquele labirinto, ainda lutava por verdade. Porque Clara sabia: não basta expor o monstro — é preciso desarmar quem o alimenta.
No jogo de Conduta, a Jornalista é uma personagem de conduta da ordem. Sua habilidade, usada uma única vez por partida, permite revelar publicamente se a última acusação feita contra alguém foi verdadeira ou falsa — com base em dados que ela coleta ao longo da investigação (mas sem identificar a fonte da acusação). Isso pode inocentar alguém injustiçado… ou desmascarar um acusador mentiroso.
Mas sua integridade é sua arma e também seu risco. Clara incomoda. Clara atrai inimigos. E, acima de tudo, Clara não se cala.
Porque enquanto todos jogam para sobreviver, ela escreve para que o jogo, um dia, acabe.