Conduta - Médico

Excerpt

Médico


O doutor se chamava Henrique Velasques. Alto, de semblante calmo e olhos que pareciam jamais piscar, ele era uma figura paradoxal dentro da estrutura de Conduta. Enquanto o restante da empresa cultivava tensão e competitividade, Henrique cultivava silêncio. Ele andava devagar, como se carregasse nos ombros o peso das vidas que já salvou… e das que não conseguiu.

Era difícil imaginar como alguém com tamanha vocação humanitária havia parado ali. As más línguas diziam que ele fora contratado para cuidar do bem-estar dos funcionários, mas na prática agia como uma espécie de confessor silencioso. Seu consultório era uma sala modesta, sem símbolos religiosos, sem diplomas pendurados. Apenas uma maca, uma luz suave e uma cadeira — sempre puxada para frente, sinalizando: “Você é importante aqui”.

Henrique raramente fazia perguntas invasivas. Suas palavras eram medidas, mas não frias. Tinha o dom de fazer os outros falarem, e quando falavam… não era raro que chorassem. Porque ele não ouvia só o que diziam: ouvia o que tentavam esconder.

Dizem que ele passou por algo terrível durante uma epidemia, anos antes. Que perdeu pessoas demais. Que, desde então, recusa-se a trabalhar em hospitais. Dizem que ele só topou o emprego em Conduta porque aqui, de alguma forma perversa, podia agir antes que o mal se espalhasse.

Ele não fazia alianças. Ajudava quem precisava, independentemente de seus valores ou intenções. Isso irritava muita gente. Mas ninguém conseguia acusá-lo diretamente. Ele era técnico demais para ser considerado uma ameaça, mas humano demais para ser descartado.

Sua habilidade de conduta da ordem reflete essa ética inabalável: uma vez por jogo, o Médico pode proteger um jogador contra qualquer efeito direto — seja uma investigação, um bloqueio ou até uma tentativa de ataque. A proteção precisa ser declarada durante a votação, e Henrique nunca protege a si mesmo.

Curiosamente, ele não avisa a quem está protegendo. Age em silêncio. Seu cuidado não exige reconhecimento. Isso faz com que sua influência passe despercebida, até que seja tarde demais.

Para os aliados, é um anjo disfarçado. Para os inimigos, um problema que não se pode simplesmente remover — porque ele não ataca, não acusa, não ameaça. Apenas está ali… curando, ouvindo, impedindo o colapso moral de um ambiente que insiste em adoecer.

Doutor Henrique Velasques não salva o jogo. Salva as pessoas. E em Conduta, isso o torna mais perigoso do que qualquer arma.