Conduta - Músico
Excerpt
Músico
Ninguém sabia ao certo quando ele começou a trabalhar ali — alguns diziam que sempre esteve. Outros juravam que ele era apenas um freelancer chamado para eventos internos. Mas, de algum modo, o Músico estava presente em todas as ocasiões que exigiam memória: confraternizações, despedidas, aniversários ou os raros momentos em que alguém confessava algo sério demais no refeitório.
Seu nome verdadeiro era Dion. Ou pelo menos, era assim que se apresentava. Carregava o violão como se fosse parte do corpo, mas o usava menos do que se imaginava. Dion preferia escutar. Era um homem de silêncios entre notas, de olhares que percorriam uma sala e extraíam harmonias do caos humano. Às vezes, um simples murmúrio dele desmontava discussões. Outras vezes, uma canção entoada baixinho gerava alianças improváveis. Ele parecia entender o que cada um precisava ouvir.
Mas o que ninguém percebia — ou fingia não perceber — era que ele também estava presente em momentos desconcertantes. Um surto no almoxarifado. Um erro financeiro que levou a uma demissão. Um desaparecimento silencioso no setor de compliance. E lá estava Dion, sempre com um tom melancólico ou uma canção quase esquecida, como se previsse os desfechos antes deles acontecerem.
Seus colegas diziam que ele compunha sobre tudo. Mas ninguém nunca viu um caderno, uma partitura, nem gravações. Suas músicas vinham do nada. E eram perfeitas para o momento. Isso incomodava os mais racionais. Encantava os mais sensíveis. Assustava os mais atentos.
Há rumores de que Dion usava a música como arma. Não no sentido literal, mas emocional. Ele sabia como dobrar a moral de alguém, reforçar uma crença ou confundir um julgamento — tudo com acordes menores ou letras sutis que tocavam feridas pessoais. Era um encantador, sim, mas não um ingênuo. Dion conhecia a escuridão dos corredores mais do que deixava transparecer.
No jogo de Conduta, o Músico é um agente emocional, um sussurro que paira entre as certezas. Sua habilidade pode desestabilizar ou fortalecer. Pode curar um trauma… ou amplificá-lo. É impossível saber se está compondo para aliviar consciências ou provocar rupturas. Sua conduta é, portanto, desconhecida — uma sinfonia de intenções ambíguas.
Porque, para Dion, não existe bem ou mal absoluto. Apenas notas mal colocadas ou silêncios ensurdecedores. E, no fim das contas, ele é o único que realmente escuta o que todos tentam esconder.