Conduta - Traficante

Excerpt

Traficante


Ela atendia por muitos nomes, mas na empresa era conhecida apenas como Rita. Não havia sobrenome, não havia crachá. Seu nome verdadeiro era um mistério, assim como seu cargo oficial — se é que tinha um. Passava pelos corredores com a naturalidade de quem não devia nada a ninguém, e ao mesmo tempo, parecia observar tudo com a atenção calculada de quem está sempre negociando algo… ou alguém.

Diziam que ela começou ali como terceirizada, talvez na limpeza ou entregas. Mas Rita tinha talento. Um tipo raro de inteligência social que beirava a manipulação. Percebeu cedo que ali dentro as pessoas tinham vícios escondidos: ansiolíticos, cafeína concentrada, hormônios de performance, até substâncias experimentais dos laboratórios internos. Onde havia desejo, Rita enxergava demanda. Onde havia silêncio, ela construía mercado.

Nunca foi vista oferecendo nada diretamente. Sua operação era refinada. Bastava deixar um aviso no vestiário do terceiro subsolo ou uma palavra sussurrada perto das escadas de incêndio. Ela nunca tocava no produto — apenas coordenava. Usava os próprios funcionários como corredores, seduzidos por favores ou ameaças sutis. Seu império era invisível, mas absolutamente funcional.

Engana-se quem pensa que Rita era movida por ganância. Sua motivação era o controle. O poder silencioso de saber que mesmo os mais poderosos da empresa — diretores, líderes de projetos, até membros da cúpula — dependiam dela em algum nível. Ela conhecia cada fraqueza, cada escapada, cada vício oculto. Tinha dossiês mentais de cada rosto que cruzava. Sabia quem usava o quê, com quem e por quê. E mais importante: sabia o momento certo de cobrar.

Seu comportamento era frio, porém cortês. Tinha carisma o suficiente para não despertar medo imediato, mas firmeza o bastante para não ser subestimada. Não gritava, não discutia. Sua autoridade era implícita. Quando alguém desaparecia misteriosamente após tentar “passar a perna”, todos sabiam que a queda não fora acidental.

Na estrutura de Conduta, a Traficante é uma peça perigosa. Sua conduta é má, e sua habilidade consiste em comprometer emocionalmente um jogador por rodada, fazendo com que ele hesite ao usar sua própria habilidade — seja por medo, dúvida, ou chantagem psicológica. Ninguém escapa ileso de um contato com Rita. Ela planta incerteza onde havia convicção. Ela enfraquece vínculos, corrói a moral, domina sem algemas.

Porque, no final das contas, Rita não vende produtos. Ela vende ilusões. E cobra caro quando elas se desfazem.