--- created: 2026-03-10T16:10:03-03:00 tags: [funcao, elenco]
Religioso Devoto
Conceito
Ele se chamava Kaito. Nome herdado do avô, reverenciado na pequena vila costeira onde cresceu. Sua presença era serena, discreta, marcada por uma respiração pausada e um olhar que parecia sempre repousar no momento presente. Kaito não tinha crachá, não constava nos registros da empresa nem recebia salário — e ainda assim, estava ali. Todos os dias. Sempre nos mesmos horários.
Chegava cedo, antes da correria dos elevadores e do café engolido às pressas. Sentava-se em silêncio no pátio interno, sobre uma pequena almofada dobrável que carregava consigo, olhos semiabertos, observando. Às vezes durante o almoço, outras após o expediente, podia-se vê-lo andando lentamente pelos corredores com um pequeno sino de cobre na mão, entoando mantras quase inaudíveis. Alguns achavam aquilo excêntrico, outros se sentiam inexplicavelmente mais calmos em sua presença.
Ninguém sabia ao certo quem o havia deixado entrar — ou se ele realmente havia entrado. Era como se Kaito fosse parte do próprio prédio, como uma escultura esquecida em um canto sagrado da arquitetura. Seus gestos eram simples: recolher papéis do chão, reorganizar cadeiras desalinhadas, apagar luzes desnecessárias. Nunca deu conselhos diretamente, mas sempre deixava anotações escritas à mão em folhas de papel de arroz, com versos do Dhammapada ou ditos zen que falavam sobre causa e efeito, impermanência, engano.
Com o tempo, surgiram histórias. Diziam que algumas decisões corporativas desastrosas foram precedidas por suas advertências sutis. “Não colherás frutos de uma semente que não plantaste”, dizia um dos bilhetes encontrados sobre a mesa de um diretor dias antes de uma auditoria explosiva. Havia quem o evitasse, temendo que seu silêncio escondesse algum poder oculto. Havia quem o procurasse em segredo, buscando paz em meio à loucura.
No jogo de Conduta, o Religioso Devoto possui conduta do caos, ainda que envolto em uma aparência de neutralidade plena. Sua habilidade, usada uma única vez, permite anular o voto de um jogador em uma rodada, sob o argumento de “equilíbrio espiritual”. No entanto, caso o voto anulado seja de um jogador de conduta da ordem, ele é penalizado secretamente — perdendo acesso à sua habilidade se ainda não a tiver usado.
Kaito acredita que o mundo é regido por ciclos cármicos inescapáveis. Para ele, intervir demais é perpetuar o sofrimento. Por isso, quando interfere, o faz com a convicção de que está apenas acelerando o inevitável. No entanto, dentro da empresa, onde compaixão pode ser confundida com conivência, sua passividade seletiva esconde intenções sombrias.
Kaito não fala sobre bem ou mal. Fala sobre fluxo. Mas nesse fluxo, ele escolhe quem se afoga.