Conduta - Veterinária
Excerpt
Veterinária
Função: Veterinária
Dra. Liana Ribeiro parecia deslocada naquele ambiente estéril, feito de vidro, concreto e competição. Trazia consigo um ar de calma que incomodava. Não era o tipo de profissional que se impõe pelo volume da voz ou pela hierarquia — sua autoridade vinha de outro lugar. De um olhar treinado para reconhecer dor onde ninguém mais via, de mãos que já haviam tocado centenas de vidas sem exigir palavras em troca.
Antes de chegar à empresa, Liana tinha construído carreira em clínicas de pequenos animais e resgates de fauna silvestre. Era conhecida por se recusar a desistir de um paciente, mesmo quando tudo indicava o contrário. Havia algo de quase espiritual em sua dedicação — não um amor idealizado pelos bichos, mas um respeito visceral pela vulnerabilidade da vida.
Seu cargo dentro da organização não era óbvio. Oficialmente, fazia parte de um programa de bem-estar e saúde ocupacional. A empresa mantinha um jardim terapêutico onde Liana cuidava de animais adotados — cães e gatos, em sua maioria, mas também uma arara resgatada e um jabuti chamado Cosmo. Funcionários podiam visitar o local durante o expediente, e muitos o faziam em busca de uma pausa silenciosa, uma distração carinhosa ou uma conversa casual com a doutora.
Mas para quem prestava atenção, a Veterinária fazia muito mais do que cuidar de animais. Ela observava. O modo como um gerente acariciava um gato, a tensão nas mãos de uma funcionária ao alimentar um cão, o olhar perdido de um estagiário enquanto observava Cosmo se mover lentamente pelo gramado. Liana lia as pessoas como lia seus pacientes: pela linguagem do corpo, pelas ausências, pelos sinais de sofrimento que ninguém verbalizava.
Sua habilidade em Conduta é de conduta da ordem e reflete essa sensibilidade: uma vez por jogo, a Veterinária pode impedir que outro jogador seja votado naquela rodada. É um escudo silencioso, um gesto de proteção baseado na intuição — ou na leitura certeira de quem está prestes a ser injustamente eliminado.
E ela não erra com facilidade. Há quem diga que Liana já salvou inocentes apenas por notar um tremor sutil na voz, um olhar perdido, um movimento de defesa instintivo. Outros acham que ela é só sorte. Mas todos sabem: se a Veterinária colocar o corpo entre você e o julgamento dos demais, é porque viu algo que ninguém mais viu.
No tabuleiro ético de Conduta, onde cada escolha pesa como uma sentença, Liana é um lembrete de que nem toda defesa precisa de palavras. Às vezes, basta alguém que esteja disposto a cuidar — com firmeza, com presença e, sobretudo, com humanidade.